Al-Menara

O "Tráfico" de Crianças

Por: Sheik Aminuddin Muhammad - 03.11.2008

Mais uma vez na semana passada, os nossos mídia reportaram com grande destaque, notícias de crianças provenientes das províncias nortenhas e que vinham à Maputo a fim de iniciarem estudos do Isslam, mas que foram interceptadas pela polícia, por suspeita de estarem a ser vítimas de tráfico.

Será que alguns dos nossos jornalistas saberão qual o real significado de “tráfico” na terminologia actual? Ou será que fingem não saber, pois não tendo nada para reportar, agarram-se à notícias sem qualquer impacto, manipulam-nas na tentativa de atrair a atenção do público consumidor para assim facturarem mais?

E nos dias que correm, para se estar na moda é suficiente diabolizar-se os muçulmanos através dos meios de comunicação, dando a entender que estes são os únicos “maus da fita” no Mundo, e todos os outros são uns anjinhos que não fazem mal à uma mosca.

Esta prática tendenciosa, perigosa, discriminatória e degradante, contribuiu bastante para demonizar e denegrir a imagem dos muçulmanos, criando uma ideia negativa do Isslam.

Não há dúvidas, que explorando vários factores sociais, algumas pessoas com aparência humana, mas que na realidade não passam de desprezíveis ofídios peçonhentos, ou de bando de urubus sempre à procura de carne humana, pois eles, de humanos nada têm, nem mesmo de sentimento humano, e diariamente traficam pessoas, seja dentro do País ou a nível internacional.

Hoje o tráfico humano transformou-se num negócio que rende milhões de dólares, estando nele envolvidos sindicatos internacionais.

De acordo com estimativas gerais de agências especializadas das Nações Unidas, existem actualmente por esse mundo fora, 27 milhões de “escravos” que vão sendo explorados sob as mais diversas formas, seja sob a forma de trabalho forçado em extensões agrícolas ou na extracção mineira, de escravatura sexual, de exploração de trabalho infantil, de prática forçada de crimes, de uso de crianças como guerrilheiros, etc.

Será que as crianças recentemente interceptadas pela polícia estavam nalguma dessas situações?

A grande comunidade muçulmana deste País fica alarmada quando sempre que se interceptam crianças que tenham como destino as nossas madrassas onde vão estudar matérias ligadas à religião isslâmica, os mídia não hesitam em rotular tais casos, de rapto ou tráfico, ainda que as supostas vítimas estejam devidamente documentadas, com a autorização dos pais, bem como outros documentos emitidas pelas autoridades dos locais de origem, portanto, com todos os requisitos e viajando nas condições possíveis e acessíveis na nossa terra.

Para retirar o mérito dos estudos isslâmicos não hesitam em dizer que as crianças foram raptadas e traficadas, à semelhança do que há muito se diz acerca da religião isslâmica, que o Isslam se espalhou à base da força.

Para se transmitir educação isslâmica aos seus filhos, os muçulmanos não precisam de traficá-las, ou forçá-las, pois os pais nuçulmanos, no exercício do seu Direito Humano básico, mandam os seus filhos às madrassas com todo o prazer, sentindo-se orgulhosos e honrados.

Ninguém, e nenhuma ONG pode vir dizer que sente mais por essas crianças e pelo seu futuro do que os seus próprios pais biológicos. Aliás, os pedidos de ingresso às escolas isslâmicas são tantos, que as escolas têm dificuldades em absorvê-las.

Temos alguma dificuldade em entender as razões para esta perseguição à educação isslâmica. Será que é proibido transmitir ensinamentos religiosos às crianças muçulmanas?

Moçambique é um país laico e os muçulmanos moçambicanos foram sempre uma parte integrante e importante deste País, pelo que não podem ser tratados como cidadãos de segunda, nem deixar que se sintam discriminados. E a História é a grande testemunha disso, pois por mais que se queiram apagar as páginas gloriosas do Isslam em Moçambique, jamais se conseguirá. Os factos falam mais alto, começando pelo nome deste País.

Mas afinal qual é o significado de liberdade religiosa consagrada na nossa Constituição? Noutros países laicos da Europa os governos subsidiam as actividades das religiões oficialmente reconhecidas. No caso de Moçambique, sabemos que o nosso governo não dispõe de meios para a criação de instituições de educação para todos os cidadãos. Portanto, algumas pessoas, por iniciativa própria e dentro da legalidade, nesta era de grande crise, usando os seus recursos construíram escolas, contribuindo assim na educação e no combate à pobreza. Onde é que está o mal nisso?

Será que o nosso governo não reconhece o bom trabalho desempenhado pelas religiões e cujo resultado é visível na sociedade? Ou será que perante o Estado algumas religiões são “mais iguais” que as outras?

Se no funcionamento das escolas isslâmicas existentes há lacunas, as entidades competentes ligadas à educaç­ão ou outras, deviam orientar os responsáveis dessas escolas a suprirem essas lacunas, ou completarem o que estiver em falta, pois esta seria a forma de se valorizar o trabalho desenvolvido a partir de iniciativas particulares de algumas pessoas. E isso é que é boa governação.

Quem não tem defeitos? Será que as instituições de ensino oficiais são todas perfeitas, as condições em que trabalham são impecáveis e não têm defeitos?

Procurar defeitos nos trabalhos dos outros é um velho hábito dos miseráveis.

Confúcio, o mais célebre filósofo chinês, homem de um ideal assaz elevado e fundador de uma religião baseada na moral, disse: “Os grande Homens chamam à atenção dos bons pontos nos outros, ao passo que os miseráveis chamam à atenção dos defeitos dos outros”. (Analectas 12 : 16)

Talvez seja por isso que os perdedores dizem facilmente: “Alguma coisa está mal”, enquanto os ganhadores dizem: “Como é que posso corrigir isto”?

Qual é a razão para os perdedores perguntarem: “Porque é que tu não fazes isto” e os vencedores geralmente dizerem: ”Está aqui algo que eu posso fazer”.

De uma maneira geral as pessoas abstêm-se de olhar para os seus próprios defeitos e atiram as culpas para os outros. O defeito que vemos, pode não estar naquilo para que olhamos, mas estar sim na nossa visão.

O Profeta Jesus (que a paz esteja com ele) disse: “Porque é que tu olhas para a pequena mancha nos olhos do teu irmão e esqueces-te da mancha nos teus próprios olhos”?

Quando os mídia concentram toda a sua atenção neste caso de alunos que vêm estudar o Isslam, quer parecer que no nosso País já não há nenhum outro problema, já não há corrupção, não há criminalidade, não há banditismo, não há jovens desempregados, o consumo de estupefacientes deixou de ser problema, já se erradicou a sida, não há exploração, já se estancou o roubo, a violência e o abuso sexual generalizados, o custo de vida já está estabilizado e os preços de produtos básicos estão ao alcance de todos, enfim o País já se tornou num paraíso terrestre e os mídia já não tem nada para reportar, pelo que se devem concentrar no caso das crianças que vinham estudar o Isslam.

Pelo menos essas crianças vinham estudar nas condi­ções que conhecemos. Que dizer dos meninos de rua que não beneficiam do mínimo de educação obrigatória, nem de comida, nem de tecto, nem de abrigo, deambulando pelas ruas à procura de restos de comida em latas de lixo? Que tal se os mídia reportassem este flagelo e avançassem com propostas para a sua erradicação?

O nosso País enfrenta várias crises, desde a moral, a social, a económica, etc. A contribuição de todas as religiões é válida, cada uma consoante as suas capacidades. Não há necessidade de se perseguir especificamente uma, para que as outras se sobreponham.