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A Compilação do Al-Qur'án

Extraído do livro “Histórias do Al-Qur’án e Regras de Tajwid”, da autoria do Sheikh Aminuddin Muhammad

 

A MEMORIZAÇÃO DOS VERSÍCULOS

 

Na edição anterior, referiu-se que o Al-Qur’án não foi revelado duma só vez, mas gradualmente.
No entanto, na época do profeta Muhammad (SAW), não era possível conservá-lo na forma dum livro logo à priori, sendo portanto, a conservação do Al-Qur’án baseada somente na sua memorização.
Tal como muitos árabes naquela época, o Profeta (SAW) também era iletrado e por isso, preocupava-se mais com a memorização do Al-Qur’án, como forma de o conservar.
Quando iniciou-se a Revelação e com a preocupação de querer memorizar os versículos imediatamente, o Profeta (SAW) repetia-os constantemente para assim não esquecê-los.
Então, ALLAH revelou-lhe alguns versículos nos quais informou ao Profeta (SAW) de que para a memorização dos versículos, não seria necessário a sua repetição precipitada, pois ALLAH criaria nele uma memória extraordinária, bastando para tal recitá-los apenas uma única vez. Deste modo, o coração (i.é, a mente) do Profeta (SAW) tornou-se na fonte e tesouro mais seguros do Al-Qur’án, onde não é possível existir qualquer falha, alteração, adição ou diminuição.

Durante a noite, o Profeta (SAW) mantinha-se acordado na oração, recitando o Al-Qur’án até que os seus pés ficassem inchados. Apesar disso, todos os anos durante o mês de Ramadhán, ele fazia revisão dos versículos revelados, recitando-os perante Jibraíl (AS).
No ano em que o Profeta (SAW) faleceu, ele fez duas vezes a revisão do Al-Qur’án [Al-Bukhari].
O Profeta (SAW) não recitava o Al-Qur’án apenas quando estivesse a sós, mas também para as pessoas escutarem, recitando em voz alta e calmamente. Ele explicava o significado dos seus versículos e incentivava as pessoas a memorizá-los.
Os Sahábas tinham tanta vontade em aprender e memorizar o Al-Qur’án que até competiam uns com os outros. Eram considerados melhores os que tinham mais versículos memorizados ou que percebiam mais os seus significados, chegando-se ao ponto de algumas mulheres exigirem como dote no acto de casamento, que os maridos lhes explicassem ou ensinassem alguns versículos do Al-Qur’án.
Assim, num curto espaço de tempo, um grande número de Sahábas tornou-se Háfiz, i.é, aquele que tem o Al-Qur’án memorizado. No tempo do Profeta (SAW), os Háfizes já eram tantos que só nas batalhas ocorridas em Bir Mauna e Yamáma, martirizaram-se 140 deles.
Isto mostra claramente que era dada uma enorme atenção à memorização do Al-Qur’án, sendo considerado o método mais seguro e estável para essa época, e também, uma particularidade deste Ummat (comunidade).

Para a sua conservação, o Al-Qur’án não depende somente de livros (papel), pois encontra-se bem conservado no coração dos muçulmanos. O mesmo não acontece com outras escrituras Divinas, cuja leitura não pode ser feita através da memória; elas só podem ser conservadas por meio de livros.
Não restam dúvidas de que o Al-Qur’án que temos hoje é autêntico, completo e da mesma forma como o original. Muitos eruditos, mesmo não muçulmanos, concluíram que o Al-Qur’án que existe hoje é o mesmo livro que Muhammad (SAW) recebeu, ensinou e transmitiu à Humanidade, há cerca de catorze séculos.
Eis aqui algumas observações que clarificam ainda mais este facto.
 

ESCRITA DA REVELAÇÃO DURANTE A VIDA DE RASSULULLAH (SAW)

 

Aquando da primeira Revelação ao profeta Muhammad (SAW), ALLAH ordenou-lhe para recitar o Al-Qur’án, mas não lhe disse claramente para escrevê-lo.
Porém, a preocupação do Profeta (SAW) em relação ao Al-Qur’án não só levou-lhe a incentivar as pessoas a memorizarem o Al-Qur’án, como também autorizou os Sahábas a registarem os versículos, logo após a sua Revelação, para garantir a sua conservação e autenticidade.
É possível que o Profeta (SAW) deduzira a sua escrita através dos versículos revelados nessa primeira vez, em que ALLAH diz: “ALLAH ensinou com a caneta”; portanto, começou a recitar em nome de ALLAH e utilizar a caneta como forma de registar a sabedoria.

Como na altura ainda não havia papel em abudância na arábia, os materiais utilizados para a escrita da Revelação foram: pedra, cabedal, troncos de tamareira e de bambú, folhas de árvores, ossos de animais e por vezes usava-se papel.
Dessa forma, o Al-Qur’án todo já tinha sido escrito sob os auspícios do Profeta (SAW), não em forma de livro, mas disperso e em materiais diversos.
O Profeta (SAW) tinha vários escrivãos, de entre eles constam: Abu Bakr, Umar, Ussmán, Ali, Zaid Bin Thábit, Muáwiyah, Khalid Bin Walid e Ubay Bin Káb y [Fathul Bari, Zádul Maád].

 

COMPILAÇÃO DO AL-QUR'ÁN NA ERA DA ABU BAKR (RTA)

 

Quando Abu Bakr Siddiq (RTA) foi nomeado Khalifa, logo após o falecimento do Profeta (SAW), no ano 632 DC, ocorreram eventos muito sérios. De entre eles, a Batalha de Yamama, no ano 12 de Hijra, que foi uma guerra dura e sangrenta, travada entre muçulmanos e os seguidores de Mussailima (o mentiroso), que reivindicava a profecia, na qual se martirizaram muitos Sahábas, sendo a maior parte deles Háfizes.

Zaid Bin Thá­bit (RTA) narra:
“Logo após a Batalha de Yamáma, Abu Bakr enviou-me uma mensagem convocando-me. Quando lá cheguei, encontrei Umar também presente, e Abu Bakr disse: Umar veio ter comigo e disse-me que na Batalha de Yamama, martirizou-se um grande número de Háfizes. Se isto continuar assim, receio que no futuro uma grande parte do Al-Qur’án venha a desaparecer; por isso, sugiro que mandes compilar o Al-Qur’án através dum decreto (em forma de livro).
Eu respondi: Como podemos fazer algo que o Profeta (SAW) não fez (hesitou, pois não queria praticar algo considerado inovador na religião)?
Umar retorquiu: Por ALLAH, este trabalho é bom e nobre e deve ser feito.
Depois disso, Umar continuou a insistir na sua ideia (explicando as vantagens e objectivos, que tranquilizaram Abu Bakr), até que ALLAH abriu também o meu peito para isso, e nesse momento, era já da mesma opinião (de Umar). Abu Bakr disse-me: Tu és um jovem inteligente, não temos desconfiança alguma em ti nem suspeitas. Tu foste o escrivão da Revelação junto do Profeta (SAW); por isso, incumbo-te que compiles o Al-Qur’án.
Zaid Bin Thábit (RTA) diz ainda: Por ALLAH! Se eles me ordenassem para transferir alguma montanha, não seria tão pesado para mim como compilar o Al-Qur’án. Comecei então a procurar os versículos do Al-Qur’án para os compilar na forma dum livro. Encontrei-os gravados (escritos) nos ramos das tamareiras, pedras e na memória das pessoas.”

[Al-Bukhari]

 

Este narração demonstra a grande preocupação por parte dos Sahábas em conservar o Al-Qur’án e de manter a religião autêntica, assim como foi deixada pelo Profeta (SAW), não permitindo que qualquer inovação fosse introduzida nela alguma vez.
Quando Abu Bakr (RTA) aceitou a ideia de Umar (RTA), e com a Luz de ALLAH, chegou o momento da sua implementação, escolheu Zaid Bin Thábit (RTA) para fazê-lo, por ser um dos nobres companheiros do Profeta (SAW) e possuía qualidades que o ajudariam na compilação do Al-Qur’án. Ele era também um Háfiz, foi escrivão da Revelação durante a vida do Profeta (SAW), era um jovem muito piedoso e firme na religião.
 

MÉTODO SAGUIDO POR ZAID BIN THÁBIT (RTA) NA COMPILAÇÃO DO AL-QUR'ÁN

 

Para garantir uma maior autenticidade ao compilar o Al-Qur’án, Zaid (RTA) baseou-se na sua memória (era Háfiz e tinha sido escrivão do Profeta (SAW)) e na de muitos outros Háfizes, formando assim uma comissão para o efeito, e na recolha de diversos materiais escritos no tempo do Profeta (SAW), que se encontravam na forma dispersa.
Para a recolha desses materiais, foi feito um anúncio público, no qual quem possuísse versículos do Al-Qur’án escritos, que contac-tasse com Zaid Bin Thábit.

Quando alguém aparecia com um ou mais versículos, Zaid (RTA) seguia os seguintes passos:

1. Confirmava-o(os) com a sua memória;
2. Ele e Umar (RTA), que fazia parte da mesma comissão nomeada por Abu Bakr (RTA), verificavam o(s) versículo(s) em causa, e só depois da confirmação de ambos é que era(m) incluído(s) na compilação;
3. Cada versículo não era incluído enquanto não fosse testemunhado por duas pessoas idóneas e que haviam presenciado a escrita do mesmo perante o Profeta (SAW);
4. Depois de incluídos na compilação, os versículos eram comparados cuidadosa e rigorosamente com os que se encontravam na posse de muitos Sahábas, que tinham escrito para si próprios.

E foi assim, com o consenso dos Sahábas, que Zaid Bin Thábit (RTA) compilou o Al-Qur’án no papel pela primeira vez na história, com todo o cuidado e rigorosidade, embora ainda não estivesse encadernado sob forma de livro.
Nesta primeira compilação, o Al-Qur’án foi escrito na pronúncia da tribo Mudhar (uma ramificação da família Quraish, à qual pertencia o profeta Muhammad (SAW)), pois ele fora revelado nessa língua.
Nessa cópia, os versículos foram compilados ordenadamente, tal como o Profeta (SAW) tinha indicado, embora os capítulos não estivessem em ordem, pois cada um deles foi escrito separadamente.
O objectivo principal desta compilação foi o de salvaguardar a autenticidade do Al-Qur’án e servir como base para futuras cópias.
Esta compilação continuou na pos­se de Abu Bakr (RTA), e após a sua morte, passou para as mãos de Umar (RTA), o segundo Khalifa.
Depois de Umar (RTA) ter sido martirizado, Hafssa (RTA) tomou conta da mesma. E após o seu falecimento, a compilação original passou para as mãos de Marwán Ibn Al-Hakam.

 

A COMPILAÇÃO NA ERA DE USSMÁN (RTA)

 

Quando Ussmán (RTA) tornou-se Khalifa (terceiro), as conquistas isslámicas já tinham-se alargado e atingido lugares bem distantes. Áreas remotas como a dos impérios Romano e Persa, já tinham sido conquistadas pelos muçulmanos. Em qualquer zona de influência isslámica, ao abraçarem o Isslam, os habitantes aprendiam o Al-Qur’án com os muçulmanos que aí chegavam.
Uma vez que o Al-Qur’án tinha sido revelado e permitido a sua recitação em várias formas (Quirát) para as diferentes tribos que tinham dialectos distintos, os Sahábas aprendiam a leitura com o Profeta (SAW) nessas formas variadas, que eram sete, e portanto, cada um deles que chegava a uma determinada zona, ensinava também aos outros na forma que aprendera.
Por exemplo, na Síria recitava-se o Quirát de Ubai Bin Káb (RTA), em Kufa (Iráq) recitava-se o de Abdullah Ibn Mass’úd (RTA) e noutras zonas, o de Abu Mussa Al-Ash’ari (RTA). Deste modo, a variação na forma de leitura chegou a lugares longínquos.
Em Madina e arredores, não havia esse problema porque os seus habitantes tinham convivido com o Profeta (SAW), e aprenderam que o Al-Qur’án fora revelado em várias formas; por isso, a divergência na leitura (e pronúncia) nunca criou problemas.

Mas com o alargamento das conquistas isslámicas e com a entrada de mais pessoas para o Isslam, nas áreas remotas e pouco esclarecidas, começaram a surgir disputas acerca das formas de recitação. Cada um afirmava que a sua forma de recitar era a mais correcta, surgindo assim desavenças entre os crentes, que mais tarde poderia eclodir numa enorme confusão, que envolveria toda a nação isslámica.
A razão para tais desavenças era de ainda não haver um exemplar do Al-Qur’án contendo indicações sobre as diferentes formas de leitu­ra, que servisse de referência e que pusesse termo a essas disputas. Por essa razão, surgiu a necessidade de se preparar uma cópia do Al-Qur’án com tais indicações.

Foi então que Ussmán (RTA), durante o seu khalifado, preocupou-se em concretizar este grande trabalho.
Ele pediu emprestado a compilação original que se encontrava na posse de Hafssa (RTA) e nomeou uma comissão constituida por quatro pessoas: Zaid Bin Thábit (RTA) (que fora escolhido anteriormente por Abu Bakr (RTA) para a compilação do Al-Qur’án), Abdullah Ibn Zubair, Said Al-Ass e Abdur-Rahmán Bin Harith Bin Hisham (RTA).
Incumbiu-lhes a tarefa de reproduzir o Al-Qur’án em vá­rias cópias, a partir do original preparado por Abu Bakr (RTA), e de colocarem os capítulos ordenadamente.
Nesta comissão, três pessoas eram Quraishitas e apenas Zaid Bin Thábit (RTA) era Anssári (i.é, de Madina). Por essa razão, Ussmán (RTA) disse: Quando vocês divergirem com Zaid na forma de caligrafia (escrita) de qualquer palavra, então escrevei-a à maneira Quraishita, pois o Al-Qur’án foi revelado na língua de Quraish.
Mais tarde, o número dos Sahábas nessa comissão foi alargado, para apoiarem este delicado trabalho.

A comissão realizou o seguinte trabalho:
1. Compilou por ordem todos os capítulos do Al-Qur’án num só livro, tal como temos hoje, uma vez que a compilação realizada no tempo de Abu Bakr (RTA), os capítulos foram escritos individualmente (em livrinhos separados);

2. Na escrita (caligrafia), foi tomado em consideração cada um dos Quirátes (leitura) Mutawattir (aprovados por unanimidade); por isso, não puseram qualquer ponto ou vogal, tornando assim possível todas as formas de recitação (que foram a causa de desavenças entre os muçulmanos);

3. Até à data, havia apenas uma compilação do Al-Qur’án feita por consenso unânime dos Sahábas. Esta comissão transcreveu sete cópias a partir deste original, que foram enviadas às mais importantes cidades do mundo isslámico de então, nomeadamente para Makkah, Síria, Yémen, Bahrain, Bassura, Kufá e uma foi guardada em Madina;

4. Para maior segurança e cuidado na trans-crição das cópias acima mencionadas, a comissão não só baseou-se na primeira compilação original realizada na era de Abu Bakr (RTA), mas também, pediu novamente os pergaminhos e várias cópias individuais que os Sahábas possuíam, para uma última comparação após a transcrição e antes da divulgação das cópias;

5. Após as cópias serem estritamente confir-madas e prontas para a divulgação, Ussmán (RTA) mandou recolher e queimar todos os versículos que os Sahábas possuíam como registo pessoal, escritos no tempo do Profeta (SAW), para que todas as cópias do Al-Qur’án existentes fossem idênticas na caligrafia, forma de leitura (Quirát) reconhecida e na ordem dos capítulos, acabando para sempre as divergências que daí advinham.
 

CONCLUSÃO

 

Este louvável trabalho de Ussmán (RTA) foi bem recebido por todos os muçulmanos, e os Sahábas prestaram-lhe todo apoio e colaboração necessários.
Com este trabalho, ele não só conservou o Al-Qur’án como também uniu os muçulmanos, encerrando-se as portas da agitação que poderiam vir a provocar um grande perigo para a unidade isslámica.
O Ummat (comunidade isslámica) aceitou por unanimidade, que a partir daí todo o Al-Qur’án deveria obedecer à regra caligráfica estabelecida pela comissão nomeada por Ussmán (RTA).
Todo o Al-Qur’án deve ser idêntico àquele e não é permitido escrever (imprimir) doutra forma, mesmo obedecendo as regras da língua árabe.
Até aos dias que correm, as cópias do Al-Qur’án continuam a ser feitas na base da versão autorizada por Ussmán (RTA) e os companheiros do Profeta (SAW), no ano 651 DC.
Pelo facto de Ussmán (RTA) ter sido o grande obreiro deste trabalho, esta cópia é denominada por “Al-Mushaf Al-Ussmán”, que representa a base para todas as cópias feitas após essa data.