Entrevista Especial
Na hora da sua despedida, Abdul Aziz
Ossman, 68 anos, actual presidente da Comunidade Mahometana, diz que deixa este
cargo com muita honra e, simultaneamente, agradece a ALLAH pela oportunidade que
lhe concedeu de liderar a Comunidade Mahometana (CM).
Vamos então acompanhar a entrevista cedida à Sautul Isslam.
SI. Que balanço faz dos 14 anos como presidente da Comunidade Maometana?
AA. Quando assegurei o cargo de presidente, a CM possuía apenas um edifício e a
mesquita, que se encontrava num avançado estado de degradação, pois cada vez que
chovia torrencialmente, a água entrava por todas os cantos.
Nestes 14 anos, conseguimos reconstruir a mesquita e ver realizado o sonho que
eu e os meus colegas tínhamos.
Contruímos também o Centro Cultural Isslámico. Recorde-se que outrora, quando
havia algum casamento, o almoço ou jantar tinha que ser realizado em instalações
pouco apropriadas para tal. Hoje, graças a ALLAH, temos uma casa completamente
isslámica.
Desde muito, o maior sonho da CM era ter uma escola isslámica. Sabe-se que a
nossa sociedade, toda ela está maioritariamente ligada ao comércio. Feliz ou
infelizmente, essa era a única actividade que podia ser exercida na altura. Mas
hoje, apesar de haver possibilidades de se expandir em diversas áreas, os
muçulmanos continuam ainda concentrados no comércio; cada dia que passa, abrem
mais estabelecimentos comercias. Continuando assim, o que será da nossa
sociedade?
Os que estudam são aqueles que não têm outra alternativa na vida.
Além disso, existem muitas crianças cujos pais não têm possibilidades de custear
os seus estudos. Para tal, temos aberto um fundo de Zakát, mas acredita que,
após vários pedidos realizados, as respostas têm sido negativas na sua maioria?
Se respondessem positivamente, um maior número de crianças muçulmanas
formar-se-ia, para mais tarde poderem defender a nossa sociedade, pois a minha
maior preocupação é a nova geração. Temos que trabalhá-la bastante para que no
futuro, possa representar condignamente e defender o Isslam, neste país que
também é dos muçulmanos.
Os líderes que temos hoje querem ser protagonistas; cada um quer pôr em prática
a sua ideia e no fim, nada acabamos por fazer, pois o próprio governo sabe que
os muçulmanos neste país estão divididos. Um dos exemplos é que nem o Ide
conseguimos fazer juntos. Se nós conseguíssemos ultrapassar estas barreiras, de
certeza que seríamos vistos com outros olhares. Mas enquanto isso não acontecer,
continuaremos divididos.
Das três eleições que já se realizaram, diga-me qual é a percentagem de
muçulmanos que o governo nomeou para fazer parte do aparelho do estado, já que
representamos uma boa parte deste país? A razão é que o próprio governo sabe que
se nomear o indivíduo A, o B ficará chateado, e assim por diante.
Temos que atingir uma plataforma, reunindo e elegendo um líder, para termos uma
única voz a nível nacional. Para tal, qualquer um pode ser elegível e, para que
ninguém fique ferido, é só fazerem-se ciclos rotativos. Só aí é que teremos
progressos.
SI. Será que o projecto educativo
pára por aqui?
AA. Este trajecto não pode parar por aqui. A primeira parte consistia na
construção duma escola, e a segunda, duma universidade.
Em 1992, quando tomei parte da CM, esta era constituída por uma boa equipe. Foi
então que surgiu a ideia de arrancarmos com uma escola. Para tal, contamos com a
colaboração de várias pessoas para progredir e levar adiante este projecto.
Começamos com apenas quatro salas, neste edifício antigo; mais tarde, tivemos um
grande apoio da parte do senhor Rashid Takdir, que ajudou-nos na construção de
mais quatro salas no piso de cima, perfazendo um total de oito, onde passamos a
leccionar até à 7ª classe.
Ao longo do tempo, os encarregados de educação começaram a questionar acerca da
razão de os alunos terem que mudar de escola quando terminavam a sétima classe.
Nessa altura, tínhamos em vista o terreno do antigo Idgáh, localizado na Av.
Josina Machel. Mais uma vez, Rashid Takdir prontificou-se a apoiar-nos na
construção de mais oito salas de aula, na condição de crédito; com dezasseis
salas de aulas, já estavamos a leccionar até à 12ª classe.
Apesar de tudo, a escola ainda era considerada pequena e não oferecia a
comodidade desejada. Foi então que começamos a procurar um terreno, para
construir uma escola condigna. Depois de localizado, requeremos ao Conselho
Municipal, que respondeu-nos positivamente, na condição de transferirmos as 50
famílias que lá existiam para um outro terreno, subsidiando-lhes o transporte e
algum valor monetário para a construção de casas.
SI. E acerca do ensino religioso?
AA. O ensino religioso ainda não se encontra no nível requerido, pois quando se
começa a misturar vários assuntos, não se consegue atingir o objectivo
pretendido. Ele não está a funcionar a 100%, porque ainda não conseguimos
implementar os princípios isslámicos na sua totalidade, mas estamos a trabalhar
para isso e, Inshá-Allah, iremos conseguir.
SI. Na área social, que programas
a CM tem desempenhado?
AA. Já construímos mais de 50 casas em Khongolote, temos concedido bolsas de
estudo, estamos também a apoiar algumas crianças órfãs na Malhangalene [vide
jornal Notícias, de 01/03/2006]; para além disso, temos também fundos de Zakát,
entre outros.
SI. Tem recebido apoio do exterior?
AA. O apoio que temos recebido é todo ele local, nada vem de fora.
SI. Qual a relação com
o mundo isslámico?
AA. Várias vezes pedimos apoio às embai-xadas do Irão e do Egipto, mas em vão.
Chego à conclusão de que os embaixadores que vêm pra cá, fazem-no no intuito de
turismo.
Certa vez, prontifiquei-me a pagar uma passagem para o norte do país ao
embaixador do Irão, a fim de ter uma noção da quantidade de muçulmanos que
existe neste país, pois aqui em Maputo não conseguimos sentir isso. A desgraça
dos muçulmanos está no interior, onde não têm escolas nem madrassas em
condições. Mas a resposta foi negativa.
Eu tenho que admitir que os Mia’s Farm (sul-africanos) têm feito um excelente
trabalho de madrassa na zona norte, mas só isso não nos vai levar muito longe.
SI. Como classifica a vossa
relação com o Governo?
AA. Temos óptimas relações com o Governo. Qualquer necessidade que temos, eles
respondem com toda a prontidão e, em contrapartida, temos sido muito úteis
igualmente.
SI. Como vê a questão do
cemitério muçulmano?
AA. Esta questão foi um problema pessoal de alguém mal intencionado.
Na altura, o presidente Artur Canana apreciou as obras e gostou muito,
recomendando apenas que plantássemos árvores à volta, pois via-se tudo lá de
fora.
Houve então uma reunião, na qual o dr. Vaz apresentou uma técnica que tinha algo
a pronunciar sobre o assunto. Os presentes pediram que ela intervisse no final
da reunião, mas ele insistiu que fosse logo no início. Foi então que ela disse
que corria um lençol de água por baixo daquele terreno e que a mesma ficaria
contaminada pela presença de corpos. Imediatamente todos os presentes começaram
a criticar aquela tese. Nós prontificamo-nos até a financiar uma equipe
estrangeira para fazer um estudo do terreno, uma vez que já haviam sido gastos
USD 400.000, mas disseram-nos que não era possível recorrer ao processo.
SI. A Sautul Isslam pretende organizar a primeira Conferência Isslámica a nível
da CPLP. Qual o seu comentário?
AA. Podemos organizar palestras em que cada um fala aquilo que sabe sobre a
religião, desde que não ofenda a alguém. Portanto, eventos desta natureza são
sempre bem vindos e é bom que haja sempre um intercâmbio entre as pessoas.
Nisso, devemos aprender muito com a vizinha África do Sul, pois aprender não é
vergonha.
SI. Na hora da despedida,
algum comentário?
AA. Não saio com mágoas. Agradeço a ALLAH, por ter me concedido a oportuni-dade
de liderar esta comunidade; dei o que podia dar, apesar de ter vários outros
projectos aqui.
Algo que me deixa bastante chocado, são os casos de divórcio; hoje em dia é como
se fosse brincadeira. Há casais com dois ou mais filhos que se separam; como irá
a mulher sobreviver, se não tiver quem a amparar?
Temos que criar condições para que elas sejam auto-sustentáveis, investindo na
sua formação e estudo.
É pertinente apostar na educação. Se cada comerciante contribuísse mensalmente
com pelo menos 200.000 MT destinados à área educativa, seria uma enorme ajuda.
O meu último desejo é construir um Mayit Khaná, para a lavagem de corpos e para
albergar um máximo de 500 pessoas; temos já três carros disponíveis.