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Há Males Que Vêm Por Bem

Maulana Ebrahim Makda

ALLAH Ta'ála afirma no Al-Qur'án:

"É muito provável que repudieis algo, mas que na verdade, isso seja benéfico para vós; e é muito provável que gosteis de algo, mas que na verdade, isso seja prejudicial para vós. Todavia, ALLAH sabe e vós ignorais."

[Al-Qur'án 2:216]

Por natureza, o Homem é precipitado; ele quer fazer tudo apressadamente e deseja ver o resultado de imediato. Não só, quer que o resultado seja tal como ele havia previsto, longe de se preocupar nas suas consequências.
Como o Homem é limitado em todos os seus aspectos, a sua visão e o seu intelecto também são limitados no que concerne em prever o resultado dos seus planos. Quando planeia um determinado resultado e, os mesmos não saem conforme o desejado e previsto, ele fica frustrado e desanimado, chegando muitas das vezes a atingir o nível de depressão. Mas tudo isso acontece porque o Homem falha em compreender que "muitos males vêm por bem".
Em seguida, citam-se algumas passagens para melhor compreendermos esta realidade e assim, podermos evitar que a frustração atinja o nível de depressão.

No Al-Qur'án (capítulo 18), ALLAH Ta'ála faz referência a um incidente entre o profeta Mussa (AS) (Moisés) e Khidar (AS).
Khidar (AS) permitiu que Mussa (AS) o acom-panhasse na condição de não lhe colocar pergunta alguma a respeito de qualquer aspecto que achasse estranho, inadmissível ou aceitável, enquanto o próprio Khidar (AS) não revelasse a causa do mesmo.
Depois de Mussa (AS) aceitar a condição e prometendo não levantar qualquer objecção, caminharam até chegarem à beira do mar, onde se encontrava uma embarcação. Enquanto negociavam com o dono do barco a fim de atravessarem o mar, este reconheceu Khidar (AS) e fez-lhes embarcar sem qualquer pagamento.
Mais tarde, Mussa (AS) reparou que Khidar (AS) estava a quebrar as tábuas da embarcação, com a ajuda de um machado; não sendo capaz de se conter e, temendo que o barco se afundasse, em espanto disse:
"Embarcamos gratuitamente e ainda arrom-baste o barco para afogar toda a gente? Sem dúvida que fizeste uma coisa horrível!"
Khidar (AS) respondeu calmamente: "Não disse que nunca poderias ter paciência comigo?"
Apercebendo-se do erro de ter quebrado a promessa de não colocar qualquer pergunta, Mussa (AS) pediu desculpas e prometeu que isso não voltaria a acontecer. Chegados a um determinado ponto, desembarcaram e continuaram o seu caminho.

Durante o percurso, encontraram um grupo de crianças a brincarem. Khidar (AS) pegou numa delas e torceu-lhe a cabeça, acabando por matá-la. Vendo isso, Mussa (AS) ficou perturbado e, não se contendo, manifestou-se algo irritado e disse: "Mataste uma pessoa inocente, que não praticou pecado algum e não matou alguém? Na verdade, cometeste um acto abominável!"
Mais uma vez, Khidar (AS) disse-lhe:
"Não te disse que nunca poderias ter paciência comigo?"
Mussa (AS) assumiu então a determinação de não questionar mais a partir daquele momento:
"Se depois disto voltar-te a perguntar sobre alguma coisa, não me deixes na tua companhia. Sem dúvida, terás uma desculpa da minha parte."

Assim, continuaram a sua caminhada até chegarem junto a uma povoação, à qual pediram algo para comer, mas recusaram-se a prestar qualquer ajuda.
Mais tarde, Khidar (AS) viu um muro que estava inclinado e prestes a ruir; aproximou-se do mesmo e, com a ajuda de Mussa (AS), restauram-no, evitando assim que fosse abaixo.
Mussa (AS) exclamou: "Estas pessoas recu-saram a prestar-nos qualquer ajuda quando lhes solicitamos. Pelo menos deveria cobrar-lhes por ter restaurado a parede. Se quisesses, exigirias uma recompensa por isso."
Khidar (AS) disse: "Esta é a separação entre eu e tu. Agora informar-te-ei da interpretação daquilo que não pudeste suportar com paciência."

Até aqui, aparentemente deduzimos que os três actos praticados por Khidar (AS) não tinham qualquer lógica, não faziam sentido e nem eram justificáveis.
O quebrar das tábuas parecia bastante prejudicial para o dono do barco, a morte da criança parecia motivo de dor e angústia para os pais e, finalmente, a restauração da parede parecia algo desmerecedor para aquela povoação, tendo em conta a atitude antipática dos seus residentes.

No entanto, Khidar (AS) começou a explicar as razões que estavam por detrás daquelas três acções que ele praticara, actuando em conformidade com as ordens de ALLAH Ta'ála, segundo consta no Al-Qur'án:
"Quanto ao barco, pertencia a uns pobres que trabalhavam no mar (e sustentavam-se disso), e eu quis deixá-lo defeituoso, porque atrás deles vinha um rei que tomava pela força todos os barcos (em bom estado)."

À primeira vista, dá-se a entender que a acção de Khidar (AS) é prejudicial; contudo, este mal trouxe um benefício maior: o de proteger a embarcação contra a usurpação do rei opressor, pois mais vale ter um barco com alguns defeitos do que não o ter. Deste modo, "foi um mal que veio por bem".

Quanto ao rapaz que Khidar (AS) matou, "aparentemente" sem razão válida, na realidade, o Kufr (descrença) que estava destinado para a criança é que estava por detrás disso. E Khidar (AS) afirmou que era muito provável que por amor ao filho, também os pais seriam tomados pela descrença.
"Quanto ao rapaz, (ALLAH informou-me que) os seus pais eram crentes e temíamos que os sujeitasse à rebelião e à incredulidade (devido à sua descrença)."

Qatada (RTA) afirma que os pais desta criança ficaram muito felizes pelo nascimento dela e bastante tristes pela sua morte, enquanto que a vida deste rapaz era sinónimo de morte para os pais.
Khidar (AS) disse desejou que ALLAH Ta'ála concedesse aos pais uma criança que lhes fosse obediente, piedosa e mais amada pelos pais; e ALLAH concedeu-lhes uma menina com essas qualidades.
Mais uma vez, a acção de matar a criança deu a entender que é algo malévolo; contudo, a mesma acção trouxe mais benefício aos pais, pois caso ela continuasse viva, seria um meio de mágoa e tristeza para os pais. É de salientar que isto aconteceu somente por indicação de ALLAH, pois ninguém pode prever o futuro sem a Sua permissão.
E assim, "foi um mal que veio por bem".

A razão que Khidar (AS) a restaurar o muro, apesar da atitude antipática dos residentes daquela localidade, era de que por baixo desse muro, havia um tesouro enterrado, que pertencia a dois órfãos dessa localidade. Khidar (AS) restaurou-o a fim de proteger esse tesouro. O Al-Qur'án narra:
"E quanto ao muro, pertencia a dois rapazes órfãos da cidade, e debaixo do qual havia um tesouro seu. O pai destes era um homem justo, e o teu Senhor quis pois, que eles atingissem a puberdade e tirassem então o seu tesouro... E isso como graça do teu Senhor; não o fiz por minha iniciativa. Eis a interpretação daquilo que não pudeste suportar com paciência."

Aqui também, a acção de Khidar (AS) parecia injusta, mas que no entanto, foi em benefício das crianças órfãs - "foi um mal que veio por bem".

O profeta Muhammad (SAW) disse: "ALLAH que tenha misericórdia de Mussa e de nós; se ele não tivesse precipitado e tivesse tido paciência, teria visto maravilhas." ALLAH Ta'ála faz-nos compreender ainda melhor a razão que se encontra por detrás daquilo que, por vezes, consideramos de males ou calamidades. ALLAH diz no Al-Qur'án: "Surgiu a corrupção na terra e no mar devido às más acções das pessoas, para lhes fazer provar algo daquilo que praticaram, para que possam abster."

[Al-Qur'án 30:41]

Sendo assim, nem todas as calamidades, doenças, terramotos, cheias e outras de natureza diversa, são repugnáveis.
Por exemplo, segundo um Hadice, a doença serve para limpar os pecados menores e para elevar o grau da pessoa; as calamidades servem como advertência para os negligentes da adoração e reconhecimento de ALLAH; a falta de chuva serve para advertir os ricos a pagarem o Zakát; as mortes em grande escala servem para alertar e avisar de que a prática do adultério atingiu proporções alarmantes, convidando a fúria de ALLAH, e assim sucessivamente. Nós é que temos que saber aproveitar estas situações e reflectirmos em que aspecto estamos a errar.
Portanto, há muitos "males que vêm por bem" para o benefício do próprio Homem, embora este não consiga compreendê-los.